Um referendo para distrair as atenções.

Vivemos no passado dia 17 um dos dias mais degradantes da nossa democracia com a aprovação na Assembleia da República de um referendo apresentado pelo PSD sobre a coadoção. Curiosamente um tema que foi aprovado na generalidade há menos de um ano na mesma assembleia.

Esta lamentável iniciativa parlamentar levada a cabo pelo PSD tem como objetivo claro negar a possibilidade de algumas pessoas poderem adotar uma ou mais crianças pelo simples facto de não serem heterossexuais. Só assim se justifica que tenham avançado com um referendo sobre uma matéria que estava já a ser legislada.

Lamentável ainda é o facto de, supostamente, ter sido a JSD, nomeadamente o seu líder, a dar origem a este processo. Que juventude é esta que promove um retrocesso civilizacional e o preconceito sobre algumas pessoas? Se todos os preconceitos tivessem ido a referendo, talvez hoje as mulheres ainda não votassem, ou a escravatura seria ainda oficial, ou os negros não votariam, para dar apenas alguns exemplos. Ou seja, estaríamos ainda no obscurantismo da Idade Média.

Com a disciplina de voto imposta aos deputados e deputadas laranjas, a direção do PSD decidiu punir aqueles que há menos de um ano tiveram a coragem de aprovar a co adoção na generalidade. Isso ficou provado pela quantidade de declarações de voto de deputados e deputadas que votaram contra a sua própria consciência.

Quer a nível local como nacional, o PSD sempre se mostrou muito hábil na propaganda e no marketing político. Estamos a começar um ano em que vão ser infringidas ainda mais medidas de austeridade que vão dificultar ainda mais a vida das portuguesas e portugueses que ainda não abandonaram o país. Nada melhor que um referendo sobre direitos fundamentais para colocar uns contra outros enquanto o governo nos rouba a todos. (Não exagero quando digo roubar, é mesmo isso que está a acontecer.)

O PSD resolveu agora referendar um tema que irá afetar uma minoria da população, impedindo a felicidade e uma vida melhor para muitas crianças. Curiosamente, o mesmo PSD não teve a coragem de propor referendos sobre temas que afetam e prejudicam a vida de praticamente toda a população, como por exemplo, o resgate da troika, as medidas de austeridade, o BPN, o apoio à banca, o tratado europeu, os cortes nas pensões, a destruição do estado social, as privatizações de empresas lucrativas, etc. etc. Se agora há dinheiro para referendos, que se referende aquilo que mais aflige as pessoas.

Vamos ter esperança que Cavaco Silva tenha a lucidez necessária para travar este vergonhoso referendo, ouvindo o coro de críticas vindas de tantos dirigentes e ex-líderes do seu próprio partido. Caso não o faça e alinhe também nesta cruzada homofóbica, teremos que ser nós todos a lutar por uma sociedade mais equilibrada, evoluída e sem preconceitos.

Crónica publicado no Jornal Opinião Pública em 23/01/2014

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